Pena de morte
GÁS SARIN E A PENA DE MORTE
Vitor Pinto, em outubro/2024
Shinjuku, na região de Shibuya, é a maior estação de metrô de Tóquio.
Hospedado no Sunroute Hotel (Hotel do Caminho do Sol), eu costumava sair e chegar
por ali quando vivi por um tempo na capital japonesa e sempre me impressionava
porque jamais vira tanta gente junta: pelo menos 3,5 milhões de pessoas a cruzam por
dia. Não muito distante dali, em Kamikuishiki, província de Yamanashi no sopé do
Monte Fuji, está localizada a sede da seita apocalíptica Aum Shinrikyo (uma mistura
de preceitos budistas, xintoístas e rememorações de Nostradamus) criada pelo guru
Shoko Asahara.
A Aum foi responsável pelo ataque no metrô de Tóquio. Numa manhã de 6ª.
feira, 20 de março de 1995, hora de intenso movimento, militantes da Aum abriram
bolsas contendo gás sarin em forma líquida, inodoro e incolor que de imediato tornou-
se um gás espalhando-se pelos vagões. Dos que o inalaram, de imediato 13 morreram
e outros 6.000 foram gravemente afetados. O sarin é um gás letal categorizado como
arma de destruição em massa pela ONU. Hoje, a seita mudou de nome para ‘Aleph’ e
continua sendo permitida no Japão em face da lei da liberdade religiosa, embora sob
forte vigilância e não mais divulgando mensagens fatalistas. Adeptos, inclusive com
elevada formação universitária, já foram identificados também na Rússia e em
Montenegro.
Pena de morte persiste em 83 países
Asahara e doze outros ‘sacerdotes’ da AUM foram executados por
enforcamento em julho de 2018, tornando inúteis as apelações de advogados de
defesa que argumentaram na linha da incapacidade momentânea dos acusados.
Atualmente, dentre 200 países, 83 admitem a Pena de Morte (PM), mas
poucos a têm executado. Em 2023 houve uma redução nos países que a aplicaram,
mas o número de execuções aumentou em função da intensidade nas condenações
fatais ultimadas pelas três nações que lideram as estatísticas macabras: Arábia
Saudita, Irã e China, sempre com a observação de que nesta última a PM segue sob
segredo de estado, fazendo com que seus números reais não sejam divulgados. Para
o total conhecido, correram 1153 execuções no ano passado, um aumento de 31% em
relação às 883 de 22. Além disso, os tribunais aplicaram a pena a um total de 2400
pessoas.
Na Arábia Saudita a Pena de Morte pode ser aplicada por tráfico de drogas,
assassinato e participação em manifestações públicas, entre outros motivos. No mês
de agosto em um só dia aconteceram 81 execuções, um recorde.
De acordo com a sharia, o código legal muçulmano, a pena máxima é devida
nos casos de Qisas, Hadud e Ta’zir. O primeiro (Qisas – 498 execuções no ano) é a
prática do princípio do ‘olho por olho’ em que a família da vítima pode perdoar o
criminoso em troca de pagamento ou de um outro tipo de condenação. O segundo
(Hadud – 131) envolve ofensas à religião, ao Estado ou à sexualidade e inclui a
apostasia na qual a religião é negada, insultos ao profeta e atos homossexuais
consentidos. O terceiro (Ta’zir – 66) se refere aos demais delitos à sociedade e o Juiz
pode decidir, sendo os relacionados ao uso de drogas os casos mais comuns.
No Irã, que teve 853 casos no ano que passou, a população tem se
posicionado contra a PM especialmente em relação a menores. Ainda assim,
continuam as condenações por causas menos relevantes, como a execução de seis
iranianos por participação nos protestos contra a morte em 2022 da jovem Mahsa
Amini que estava sob custódia policial e que fora detida por não usar o véu islâmico
regulamentar. Duas outras pessoas foram assassinadas pelo Estado por blasfêmia e
uma por adultério.
São 46 os delitos admitidos pela lei na China aos quais a PM pode ser
estabelecida. O país executa mais vítimas que todo o resto do mundo em conjunto.
Não por acaso a China figura ao lado de Egito, Arábia Saudita, Vietnã, Irã, Coreia do
Norte, Afeganistão e Síria como os países com os piores índices de liberdade de
imprensa no mundo.
Em 10 de outubro comemora-se o Dia Mundial Contra a Pena de Morte,
instituído pela ONU por ela ser contrária à Declaração Universal dos Direitos
Humanos, mas no polo oposto estão os 20 países que até hoje não firmaram a
Convenção Contra a Tortura e que são: Irã, Tanzânia, Malásia, Zimbabwe, Cingapura,
Coréia do Norte, Mianmar, Papua Nova Guiné, Trinidad Tobago, Barbados, Jamaica,
Santa Lúcia, Dominica, Ilhas Cook, Butão, Niue, Tonga, Tuvalu, Micronésia e Ilhas
Salomão.
Embora a China insista em manter total segredo em relação ao assunto,
bem à sua frente Taiwan tem aprofundado as análises ao discutir a
possibilidade de abolir a PM. A última execução neste país ocorreu em 2020
quando Weng Jen foi morto, de acordo com o método aí adotado, com um tiro
no coração pelas costas. A equipe jurídica do Death Penalty Project, cujas
posições têm sido consideradas pelo governo (que, no entanto, mantém a PM
na legislação nacional), com base em dados concretos de diversos países –
incluindo Cingapura, Hong Kong e Estados Unidos da América – elaborou
parecer mostrando que a PM não tem efeito dissuasor sobre crimes graves em
comparação a outras punições graves, como prisão perpétua. As evidências
disponíveis deixam claro que a pena de morte em Taiwan é inerentemente
arbitrária e leva a resultados inconsistentes e injustos, uma realidade que sem
dúvida se reproduz mundo afora.
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